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Sem ingenuidade, o conjunto de eventos que causou a crise financeira que assolou e assola os mercados globais expôs erros recorrentes e graves de conduta e, sobretudo, erros no campo da ética e da moral por parte dos participantes do mercado que até o presente momento nem se quer foram avaliados ou atacados.
Nada está sendo feito para alterar o curso que nos deixa extremamente vulneráveis e em rota de colisão com um imenso muro de concreto e aço. A crise não só não acabou como iremos experienciar uma ainda maior num futuro próximo. Todas as medidas adotadas pelas autoridades dos governos e dos bancos centrais dos países não passam de antisséptico e bandagens. A causa do ferimento ainda não foi atacada.
Nietzsche escreveu há muitos anos que os seres humanos são iguais, dotados de inteligência. Exceto que alguns seres humanos utilizavam a inteligência de forma eficiente e se destacavam em seus campos. Por essa razão, deveriam ser recompensados de forma diferente. Porém, o que vemos atualmente no planeta são excessos de ganhos possibilitados por um sistema de ganância corporativa que se baseia em desordenadas cadeias de ganhos imediatos.
Existem poucos gênios na terra. Estes são colocados num patamar científico isolado e auxiliam os avanços que conquistamos ao longo do tempo. Tristemente estes gênios não trabalham ou frequentam Wall Street ou a Avenida Paulista.
Para aumentar a lucratividade das empresas, alguns pseudogênios criaram um sistema visando à redução da mão de obra. Desta forma, aumentaram a produtividade e a lucratividade. Menores salários fixos e possibilidades de altos salários na forma variável. Comissões por metas realizadas, vendas aumentadas e lucros divididos.
Isso possibilitou a quase qualquer um, inteligente ou não, multiplicar seus salários por meio de bônus e comissões. As instituições acharam este sistema maravilhoso: "nosso custo fixo é reduzido e só pagamos altas somas quando o funcionário nos gera lucros". Os funcionários adoraram esta ideia, pois desta forma qualquer um pode chegar a ser um milionário.
O detalhe que passa ao largo sem ser mencionado é o efeito no longo prazo dessa consciência alterada. As metas fixadas de produção são altas individualmente e por equipes. O mercado é sujeito a sazonalidades. Impossível produzir os mesmos ganhos todos os meses. Os ganhos dos bônus são sujeitos às intempéries dos mercados.
Assim sendo, na gana de obter cada vez mais dinheiro em forma de bônus de performance, as pessoas se tornam mais suscetíveis a assumir riscos. Assumindo mais riscos, a montanha de areia vai se formando e, mais dia menos dia, ele desmorona.
Os critérios para avaliação de riscos nas operações financeiras são relativamente eficientes apenas nas condições de risco diversificável, ou seja, riscos individualizados em condições normais de mercado. São totalmente ineficientes em condições de risco sistêmico. O incentivo à conclusão de negócios em troca de altos bônus é a poderosa arma destruidora que vai trazer o fim dos mercados financeiros como os conhecemos.
Chegamos ao ponto em que estamos com autoridades afirmando diariamente que a crise já acabou, que tudo deve voltar ao seu lugar e que a economia irá crescer novamente. Para uma doença grave, não se pode apenas receitar antissépticos e bandagens. O que causa as feridas ainda não foi solucionado.
A quantidade de dinheiro disponibilizada aos bancos nesta crise foi sem dúvida importante. Resolvemos o problema de solvência do sistema financeiro. Com as garantias fornecidas pelos bancos centrais, resolvemos o problema de liquidez e solvência das empresas grandes, porém, elas perderam fatias de mercado pela queda no consumo. Os bancos, por sua vez, permanecem sólidos.
A economia que irá apresentar um crescimento sólido será aquela que poderá se basear em conceitos de ética e moral, essenciais para um crescimento com sustentabilidade. É a economia onde todos ganham, todos contribuem. A solução para esta crise e as maiores que ainda estão por vir está na revisão e mudança deste conceito. Devemos ser mais incisivos nas coisas duradouras, como fundamentação ética e moral, corte de impostos e encargos sociais, maior regulamentação das atividades dos participantes dos mercados financeiros globais e nunca esquecermos que o país, o governo, as empresas e os bancos, são feitos de pessoas. Fomentar a criação de emprego, auxiliar as empresas e os empreendedores, gerar benefícios para novas oportunidades. Sobretudo, nunca devemos tratar o sintoma do paciente, mas sim a causa do problema. (Colaborou James Hunter, professor da Brazilian Business School)
Ricardo Torres é professor da Brazilian Business School (BBS)
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