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Uma corrida ao ouro, mas dos tempos modernos
Ricardo Torres 04/12/2009 Valor Econômico
 

O velho e bom ouro está roubando a cena no panorama mundial, apresentando valorização de mais de 350% nos últimos 10 anos. Para preservação de valor, diante das incertezas da atual conjuntura econômica mundial, o metal representa uma alternativa eficaz ante o dólar que, por sua vez, vem perdendo valor e seu status de moeda de reserva.

Não faz muito tempo, os países começaram a se desfazer de suas reservas em ouro acreditando que não havia mais temor quanto à instabilidade de suas moedas e que existiam inúmeras oportunidades mais rentáveis para dinheiro vivo em detrimento do nobre metal. As cotações atingiram um ponto de baixa de US$ 255,30 por onça-troy (31,1035 gramas, uma barra de um quilo tem 32.151 onças-troy) no início do século XXI, enquanto as taxas de juros e as bolsas apresentavam retornos expressivos. Em 2008, a crise mais anunciada da história mostrou suas marcas. Tivemos, assim, o início da corrida do ouro dos tempos modernos. Não nas minas nem nos rios, mas nos mercados sofisticados de nossos tempos.

A China é o maior produtor de ouro do mundo e vêm aumentando suas reservas desde 2003, levando o país ao quinto lugar em quantidade de ouro por país. A Índia anunciou aquisição de 200 toneladas de ouro, no início do mês de novembro, por US$ 6,7 bilhões. A Rússia vem fazendo o mesmo.

Nos Estados Unidos, as coisas não vão bem. Com as contas macroeconômicas em estado grave, taxas de juros com retorno muito baixas (próximas de zero no curto prazo) e com uma conjuntura econômica mundial negativa para o dólar americano, a moeda deveria ser a última alternativa para os investidores que buscam preservar valor.

O fator determinante de valor de uma moeda é a credibilidade no valor dela, na preservação de valor, nos retornos oferecidos, na segurança que receberá o investimento de volta e com lucro. Para tornar moeda de reserva, é imperativo que exista um mercado de capitais desenvolvido, com instrumentos líquidos de hedge disponíveis, livre mercado e conversibilidade integral. A moeda americana reúne estes pré-requisitos, mas está frágil porque a economia americana está frágil e os erros e altos gastos das administrações passadas causaram uma erosão na credibilidade da moeda. Apenas trocar moedas, elegendo o euro ou o iene também não será solução definitiva.

Outro fator predominante de enfraquecimento do dólar é a necessidade de aumentar as emissões de títulos de dívida do Tesouro para financiar os crescentes déficits comercial e fiscal que o país apresenta e ainda financiar os pacotes de auxílio para combater a crise. Além disso, a curva de juros americana apresenta discrepâncias entre os prazos curtos, médios e longos, dando oportunidades excelentes de arbitragens. A arbitragem corrente é a de apostar no spread entre o prazo de 2 contra 5, 10 e 30 anos.

Se essa moeda está perdendo credibilidade, o que as nações farão com a imensa reserva de dólares que possuem? Cada dólar guardado nas contas nacionais de um país representa um prejuízo enorme, pois necessitam ser "esterilizados". Portanto, todos estão tendo de lidar com altos custos para manter as reservas em dólares. Os bancos centrais dos países estão estudando maneiras para melhor investir as reservas, sem causar uma catástrofe ao venderem a quantidade de dólares que possuem, mas sim, partes e aos poucos.

O que não dá e nunca deu resultado são as medidas artificiais utilizadas pelos governos de alguns países para manterem o valor do dólar alto, desvalorizando suas próprias moedas. A história nos mostra que toda vez que tentamos alterar as forças da natureza de forma artificial inevitavelmente iremos observar uma catástrofe ainda maior no futuro próximo. A queda do dólar na conjuntura atual é uma força da natureza e, ao menos que as coisas mudem de forma dramática na estrutura da economia americana, nada irá impedir que o dólar continue a perder valor.

Diante deste cenário, o ouro se apresenta como ótima alternativa de preservação de valor até que algo novo apareça ou que o temor e as incertezas da atualidade sejam dissipados e substituídos por uma nova onda de segurança e crescimento econômico global. Alguns países já deram início a esta nova fase de investimentos diversificados por meio da criação dos fundos soberanos, que investem em empresas que geram empregos, arrecadam impostos e auxiliam na distribuição de renda. Investir na economia real dos países utilizando de forma eficaz ao menos uma parte desta quantidade de recursos disponíveis.

Ricardo Della Santina Torres é professor de finanças da Brazilian Business School (BBS)

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